Sem luz no final do sorvete

sorvetinho cacau

Há dias contei o caso de um senhor, na faixa dos 92 anos, que me parou na Avenida Ipiranga. Sentado na poltrona de trás de um Lamborghini, abriu o vidro e lançou:

– Moça, moça

– Diga.

– Gostaria de tomar um sorvete ?

Uma ressalva: falo Lamborguini porque acho sonoro, mas poderia ser Ferrari, BMW e variações.

Eu estava em frente ao Terraço Itália, a caminho da farmácia, uma cara de derrota, em um desses pijamas que passam tranquilamente por um conjunto Osklen.

– Quero, não. Obrigada.

E segui rumo à Droga Raia cantando aquele clássico do Júpiter Maçã.

Que tal um chopinho lá no Copan?

Umas fotos turísticas no Terraço Itália?

Que tal um chopinho lá no Copan?

Mas voltando.

Passou o tempo e, de vez em quando, lembro do senhor do Lamborguini. “Poderia ter tomado esse sorvete. No mínimo renderia uma boa história”. Mas minha imaginação normalmente vai além, por isso confesso: sempre que falam da reforma da previdência me imagino no enterro do velho, toda de preto, bem Donatella Versace, chorando, mas com a aposentadoria garantida.

Ontem, não por acaso, um deputado irrelevante, desses doidos por um holofote, resolveu SURPREENDER as mulheres ao sugerir a proibição de métodos contraceptivos – segundo o dito cujo, poderiam ser mini-abortos. Pausa para uma reflexão: “O tal do coito interrompido também configuraria uma espécie de “mini-aborto?”. Não vem ao caso.

O fato é que novamente lembrei do velho do Lamborguini. De onde aquele senhor tirou que eu poderia “tomar um sorvete” com ele ? A última vez que me abordaram DO NADA, com convites “estranhos”, foi em 2017, em Havana, onde os caras gritam “PRECIOSA, UN BESO!” porque ainda vivem, “teoricamente”, nos anos 50. Digo última vez na vida real, porque na virtual não vem ao caso.

havana 2017.jpg
Havana, 2017

Mas sabe. A história do sorvete, da previdência, dos “homens mortos com a bola toda”, do patético, me remeteram a inúmeras perguntas.

Daqui a 30 anos, quando eu resumir os últimos dois anos para um jovem, o que direi sobre o Brasil ? Que em 2019 voltamos para 1989? Que 2049 é apenas uma cópia de 2013, quando entramos na máquina do tempo do WhatsApp e começamos a retroceder ? Que o Brasil que deu certo ficou perdido na insignificância cósmica ou está acontecendo em alguma dimensão extra do universo em expansão?

Não sei. Mas creio que o senhor do Lamborguini, até lá, não estará mais entre nós. Estamos todos perdidos.

Publicado por

cacaucb

escritora e jornalista

Um comentário sobre “Sem luz no final do sorvete”

  1. Em Havana, me pareceu que os caras são do tipo machista mesmo, velho estilo. Aqui no Brasil, o cara que tem carrão se julga o homem da Casa Grande mesmo, pensa que pode assediar todas e se dar bem…

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