À primeira vista, tudo parecia tranquilo. Sobre a lâmpada erguida no teto, via-se um grupo de mariposas voando em espiral como se aquela fosse a única fonte luminosa localizada na Terra. Num impulso, olhou mais uma vez sua caixa de e-mails, onde o destino lhe reservava uma estranha mensagem. “Futuro papai, economize ainda mais com o pacotão Zizi de fraldas descartáveis.”

Demétrio franziu a testa, apagou o e-mail e seguiu para uma última olhadinha no site de notícias, onde outra surpresa pipocava: “Parto assistido em casa com 70% de desconto”.

Ele, atônito, não compreendia. De repente, a internet inteira parecia lhe dizer: “olha, você ainda não sabe, mas  você será pai”.

A situação ficou ainda mais cabulosa nas redes sociais, que insistiam em lhe recomendar enxovais diferenciados para bebês de zero a três meses.

Demétrio, tomado por aquela sensação sinistra que nos acomete na infância, quando uma mão enorme sai de um lugar desconhecido e puxa nosso pé, gritou:

– FORA TODOS!

Nem eufórico, nem deprimido – a melhor definição, neste caso, seria ‘passado’ -, deitou-se no sofá de chenille da Etna e pegou o telefone a fim de investigar o caso. Tudo pelo WhatsApp para não assustar ninguém.

– Isabel, você menstruou esse mês?

Leu e não respondeu. Uma pausa dramática e dez minutos depois

– É meu marido pra pedir satisfação, seu merda?

Depois mandou mensagem para sua última ficante.

– Tudo bem? Sei que não te liguei no dia seguinte, mas preciso saber se existe a possibilidade de você estar grávida de um filho meu.
– Mas você não comeu.

Constrangido, desligou sem se despedir. “O carnaval. Só pode ter sido no carnaval”. Sabendo o que poderia encontrar, voltou ao Facebook, onde o anúncio de um evento brilhava no canto superior direito: “Encontro dos papais de primeira viagem”.

– Não é possível!

Ligou para a rede social, onde tentaram lhe convencer que tudo não passava de “customização, comodidade, cruzamento de dados”.

É preciso dizer que Demétrio não desabafava no Facebook, não compartilhava opiniões políticas, não comprava produtos online, não baixava aplicativos suspeitos e tinha presença discreta em apenas duas redes sociais. “Por motivo profissional”, justificava.

Tinha um endereço de correio eletrônico cuja senha trocava periodicamente aos domingos. “Algo complicado o suficiente para que ninguém descubra, mas relativamente simples para que eu consiga lembrar”. Receber uma série de anúncios vinculados à paternidade era, no mínimo, estranho para alguém que destacava-se pela reserva – considerada, por muitos, como pura falta de brilho mesmo.

Após deletar todas as suas contas, ligou para o servidor, para a fabricante do notebook, para a operadora de celular, para o Google, para Deus e o mundo.

– Estou sendo espionado.
– Senhor, indivíduos com o seu perfil não atraem espiões.
– Como você sabe?

Silêncio. 

–  O senhor limpou os cookies? Reiniciou a máquina? Atualizou o roteador?
– Sim. Sim. Sim.
– Senhor, não há mais nada a fazer. Gostaria de anotar o número de protocolo?
Demétrio então ligou para seu psicanalista, que deu a dica após escutar todo o caso: tem problemas com o pai. Grande descoberta! Mais de 10 mil gastos em consultas nos últimos anos para desvendar o “mistério dos mistérios”.
– TUDO BANDIDO SAFADO!

 Não satisfeito com a explicação, foi até a polícia denunciar o caso.

– O senhor tem algum motivo para se sentir ameaçado? -, perguntou o delegado.
–  A internet sabe mais coisas sobre mim do que eu mesmo.
– Ligação anônima?
– Pior! Imagine  um vendedor que aparece em todos os lugares onde o senhor vai antes mesmo de você sonhar em precisar da coisa.
– E esse vendedor  está lhe ameaçando?
– NÃO. Foi só um exemplo! É muito pior. O senhor já acordou com a sensação de que algo está errado mas que não há nada que você possa fazer pra mudar isso?
– Sim, todos os dias.
– Então, eu gostaria de prestar queixar contra isso.
– Pela ameaça de que a internet sabe mais sobre sua vida do que você?
– Sim.
– Sabia que reutilizar uma senha é muito mais perigoso do que anotá-la em um papel?  Que a mudança periódica de senhas evitaria…

Estava se expondo ainda mais daquele jeito. Logo ele, um homem discretíssimo. 

– Esquece. Tchau.

Chorou baixinho mas, no silêncio do seu Honda Civic blindado, aquele ruído era aterrador. A privacidade; o fim de tudo; os dados; os dados; os dados. Diante da impossibilidade de viver sem ser observado, jurou em voz alta.

– Um dia vou te encontrar, meu filho!

E dirigiu sem rumo, atraído pela suposta ideia de que não estava mais sozinho.

Uma resposta para “Eu não sou um robô

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