À medida que registro as atividades simultâneas do discurso paranóico dos Bolsonaros, mais surgem sinais de que as reações despejadas nas redes sociais não são tão aleatórias como muitos querem imaginar.

Indomesticável. Alucinado. Uma personalidade cheia de arestas. Foram alguns adjetivos usados para descrever Carlos Bolsonaro nos últimos dias. Tudo, claro, baseado na sequência de ataques que o Zero Dois despejou e que foram usados estrategicamente pelo pai numa jogada que colocou o filho no olho do furacão.

Digo isso porque, ao contrário do que muitos imaginam (e do que eu também imaginava), Carlos não é apenas “um rebelde porque a vida quis assim”. É manipulado e com requinte shakespeariano.

Justifico minha percepção com base em algumas observações.

Setembro de 2016: “É ele quem controla tudo”.

A Revista Piauí publicou um longo perfil do então deputado Jair Bolsonaro: Eduardo é quem mais aparece, sempre com os olhos no computador, enquanto Flavio é descrito como o mais ponderado. Atenção para o trecho sobre as redes sociais.

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Outubro de 2000: “Falarei com meu pai antes de tomar qualquer decisão importante.”

Aos 17 anos, Carlos foi eleito o vereador mais jovem do País. Sua candidatura foi lançada pelo pai, com o objetivo de frustrar a reeleição da mãe. Em matéria publicada pela Isto É, na ocasião, Carlos admitiu que não teria autonomia na Câmara do Rio.

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Segundo a Revista Veja, Carlos depois se sentiu usado pelo pai; ficaram sem se falar por anos.

Dia 15 de fevereiro de 2019: Pressionado, Bolsonaro concorda com afastamento do filho Carlos das questões do governo e manutenção de Bebianno no Ministério.

Mais uma vez, Carlos está no foco como o “problema” enquanto Bolsonaro seria a solução. Bebianno vem num segundo plano. A questão é: neste momento de desconexão, quem está no comando ?

A maior parte de nosso foco imediato para compreender palavras reside na emoção. Um exemplo tosco:

Você está conversando com um amigo, tudo fluindo tranquilamente, e ele de repente fala algo como “quase morri ontem”. Você se surpreende. Ele então explica que “quase morreu de ódio porque o Palmeiras jogou mal”. Você se sente aliviado, inconscientemente, e depois não consegue lembrar do que estavam falando antes. “Qual era o tópico mesmo?” É claro que tudo isso é muito rápido, e não sou nenhuma especialista nesse assunto, mas explica um pouco sobre como a emoção impacta nossa atenção.

Ao dizer que Bolsonaro concorda com afastamento de filho, o presidente retoma sua posição de líder e Carlos volta para seu papel problemático em Rebeldes. Nada mais confortável do que ‘o país vítima do filho’ ou ‘os filhos não deixam o pai trabalhar…’ ou ‘quem escreve é o Carluxo, não é o pai’. Pouco importa quem escreve. O nome disso se chama passar pano. Homens fazem isso com certa frequência, independente de inclinação política.

Inconscientemente, também temos uma relação emotiva quando vemos Bolsonaro com Carlos. E o meu ponto é: até onde o pai usa isso para se proteger?

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16 de fevereiro de 2019: ‘Impressão’ é que Bolsonaro usa filho para induzir saída de Bebianno, diz Rodrigo Maia – Blog da Andreia Sadi.

Eu não poderia concordar mais, NA VIDA, com a frase dita pelo presidente da Câmara. Cria de Michel Temer nunca decepciona.

As coisas que fazemos por amor…

Já Eduardo Bolsonaro, mais calculista, frequentemente usa o recurso de “descontinuidade”. Carlos fala, Bolsonaro retuíta, Eduardo “procura culpados” sem citar nomes.

É o caso da indireta publicada ontem. “O que tem de gente que não sabe metade do que está acontecendo mas ainda assim dá pitaco, meu Deus… Se não sabe, conselho: fique quieto”.

Ao longo de todo o trabalho de observação direta intensiva que venho realizando, não tenho a menor dúvida de que a agressividade de Carlos é mais genuína e menos calculada que a de Eduardo e Jair. Carlos, se fosse uma novela, estaria mais para “vítima”.

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Finalizando.

Na coluna de Vinicius  Mota, “Filho alucinado fortalece generais, Moro e Guedes” – o secretário de redação da Folha defende que “Quanto mais os filhos intervierem, mais o governo do pai dependerá dos generais”. Eu não tenho dúvidas disso, mas não estou mais convencida de que o ‘filho alucinado’ é tão indomesticável assim.

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O pai, protegido pela imagem de “autenticidade” e comprometido com a ideia de “homem provinciano”, é o grande manipulador da paranoia chamada ‘Brasil 2019’.

 

 

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