Próxima Estação: Coração Partido

Os filmes que a gente vê, os livros que a gente lê, as bobagens que acompanhamos sobre a vida de quem nem sabe que existimos, os tweets irônicos, os Stories do Instagram com imagens da televisão, são uma maneira de escapar das nossas dores.

Já Fátima, que não tinha intimidade com redes sociais, usava o metrô de São Paulo como escapismo; um local absolutamente doido e irreal, sendo a linha vermelha manipulada por força obscura.

Linha Vermelha

Era segunda-feira, 6h30, quando embarcou. Sob a máscara do celular, um jovem ocupava o assento preferencial. Irritada com a falta de educação do rapaz, Fátima desceu na Marechal Deodoro. “Bando de imprestável, um dia envelhecerão também”.

Na plataforma, Fátima perdeu algum tempo admirando a figura de um trabalhador rural derrotando um monstro disforme associado às forças de opressão. Um belo trabalho do artista Gontran Guanaes Netto. O mesmo artista tinha outra obra ali, uma homenagem à Revolução Francesa. Um rapaz pediu que Fátima tirasse uma foto. 

– Tiro com prazer! Você sabia que esse painel foi inspirado na tela de Delacroix? Nesse, os revolucionários franceses foram substituídos por trabalhadores rurais brasileiros. 

Irritado, o rapaz respondeu:

– “Não quero mais foto. Tudo pilantra!

República

E Fátima partiu rumo à República, onde referências ao modernismo pipocavam  na instalação de Antonio Peticov. Uma parte da massa se despediu para a entrada de outro grupo. Um senhor sem máscara, desprovido de qualquer aparelho, chamou sua atenção. Entrou focado, olhos vidrados naquele assento vazio. Decidida, encerrou a disputa e sentou como se ali fosse o seu trono.

“Já é a quarta vez que vejo este homem aqui. Sem dúvida, tem um rosto interessante”. E puxou conversa com a moça ao lado, que estava concentrada no triatlon Twitter-Instagram-WhatsApp.

– Acredita  em amor à primeira vista?

– Claro que não. Tchau.

 E partiu deixando o assento ao lado de Fátima vazio. O homem misterioso, então, se aproximou, mas  acabou oferecendo o lugar para uma mulher supostamente grávida. “De perto dá pra sentir que não é um bêbado. Bastante asseado”.  

SÉ  

Esmagada pela multidão e por notificações de WhatsApp que reproduziam-se como gremlins,  tentou cumprimentá-lo com um sorriso, mas fracassou miseravelmente. O homem estava concentrado na TV Minuto, onde uma cidade acabara de ser engolida pela lama de uma mineradora. Foi aí que o senhor misterioso resolveu falar.

– Agora vão querer culpar o Bolsonaro. Mal entrou e já querem culpar o capitão.

Com base naquela reprodução verbal, Fátima concluiu que aquele homem era um imbecil e sua indiferença soou como uma homenagem.
 
No monitor, um mar de lama. Famílias desesperadas. O horror de existir. A terrível verdade de que em alguns dias ninguém se importaria mais com aquilo. 

A brutalidade da cena provocou uma associação de sons e imagens. “Deus modelando o homem com a argila do solo – a morte – o nada – porque ainda estamos aqui? – aquele policial está armado? A execução de Marielle. A execução de Marielle. Uma mulher honesta. Já vai fazer um ano?”

Falando alto, Fátima soltou um “que absurdo”, ao que uma adolescente reforçou:

– Um absurdo mesmo ler e não responder!

Fátima permaneceu o dia inteiro ali, indo e voltando naquela espécie de cápsula espacial, quando finalmente reconheceu alguns rostos que retornavam. “A vida continua”, pensou. Mas automaticamente se corrigiu. “Não continua. A vida se repete. Estamos todos presos”.
 
Abandonou o metrô na Guilhermina-Esperança  e seguiu, sabe-se lá como, para casa. Estava ansiosa para desligar-se da Terra.

Publicado por

cacaucb

escritora e jornalista

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