Desertos mentais instauram-se com bastante frequência durante as viagens de  elevador do condomínio ‘Esistenza’. É nesta caixa  absolutamente doida e irreal que a câmera mira Fernanda. Num arranque, o elevador para e a voz de um homem surge. No espelho, seu reflexo.

Nandinha, ainda posso te chamar assim ? Sou eu.

Permaneci calado por dois anos, mas não deixei de te observar por nenhum dia. A real é que não entendo por que as pessoas sentem tanta necessidade de se comunicar. Lá pra onde mudei é um silêncio só. 

Não gostou de escutar minha voz ? Quis fazer uma surpresa e parece que funcionou. Você está um pouco pálida, mas não precisa ter medo, nunca te faria mal. Ao contrário de ti, nunca falei mal de você. E não adianta negar. Eu vi, eu tenho provas. Eu escutei aquele áudio. Você mente sobre mim, mas não me importo. Porque me importaria considerando minha atual situação ?

Nandinha, eu tenho te observado bastante nos últimos dias. Você anda bem soltinha no Twitter… fazendo graça, querendo chamar a atenção. E interessante aquela sua ida ao teatro. “Não sou muito de teatro”, você dizia. Também vi seu rosto em determinado aplicativo de encontros. Me esqueceu rápido, né? Pois eu, não. No sábado tive uma crise de riso com aquele seu Stories no Ibirapuera. Você e aquele maconheiro vagabundo deitados na grama, num típico programa classe média. Senti um pouco de pena. Sábado no Ibirapuera? Fala sério, Nandinha. Nós sempre abominamos esse tipo de programa…

Para de gritar! Não adianta! Estamos presos aqui e não é um sonho. E vê se para de jogar essa bolsa contra o espelho porque depois vão te cobrar os danos e, até onde sei, você está devendo agiotas.

Vê se não me desconcentra mais porque ainda preciso falar umas coisas e meu tempo tá acabando …

É isso. Não canso de te observar. Adoro te ver acordando com a marca do travesseiro na  testa. São tantas câmeras e ângulos, você não tem ideia. Adoro te ver dormindo bêbada, torta, respirando álcool pela boca.

Para de me olhar assim, por favor! Será que piorei tanto? Tentei tomar um sol antes de aparecer aqui, mas não deu tempo. O terno está um pouco gasto, mas foi você quem escolheu, não recorda? Continuo tão branco quanto no dia que você me matou.

Ainda guardo a cena fresca na memória. Você atirando contra meu rosto, com o meu revólver.  Tu ainda é a única pessoa do mundo que me conhece, Nandinha. Foi exatamente por isso que atirou? Logo eu, um homem de bem!

Preciso partir. Meu tempo no elevador está acabando e você não me verá ou me escutará tão cedo. Mas aproveito pra dizer que não adianta colar adesivo na câmera ou trocar de celular porque sempre estarei por aí. No fundo, você salvou minha vida e agora é responsável por ela.

Um dia nos encontraremos de novo e te mostrarei tudo. É inevitável, Nandinha. Te amo. Te amo. Te amo. Te a…

Outro arranque. A imagem some. A voz se cala. O elevador volta a se movimentar. As portas se abrem no térreo e Fernanda parte na mesma velocidade em que gira a Terra. 

Uma resposta para “O stalker de bem

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