Vivo apenas neste quarto. Entre uma cama de solteiro, um lençol velho, um espelho amarelado e uma escrivaninha que funciona como mesa e penteadeira. Eu estou sem internet desde o mês passado (ou talvez mais, não sei bem) e há duas semanas sem luz. É por isso que dei para passar o tempo na janela que dá para a rua principal do bairro.

Ontem fazia uma tarde bonita e as pessoas andavam sem pressa: fim de semana, talvez? Na calçada em frente, a mulher que matou o marido secava as unhas, livre e feliz. Atrás dela, um vira-lata puxava o adolescente em direção ao Boteco Diabo Louro na tentativa de capturar o cheiro da feijoada. Definitivamente, era sábado.

Rapazes vestidos com a camisa do Palmeiras chegavam pouco a pouco e formavam um grupo animado. A turma de aposentados, por sinal, já estava lá: do apartamento era possível escutar a voz de um deles defendendo a “eliminação” da cracolândia. “Quer dizer que pago imposto pra recuperar vagabundo? Tinha que jogar gasolina nos caras e pronto”. Foi interrompido, em seguida, pelo senhor de bigode, que chegou contando uma piada machista. “Toda mulher que reclama de estupro é feia pra caralho”. Entediado, tentei, pela milésima vez, descobrir a senha da rede wi-fi do vizinho –  para variar, fracassei miseravelmente. “Esta janela me parece mais uma meditação violenta sobre a realidade do mundo. Fazer o que?” Puxei uma cadeira e sentei a cavalo para observar o espetáculo.

Jaime, o ex-policial aposentado, apareceu pouco depois no boteco: indignado, balançava uma revista Veja. “Esse Bolsonaro deveria ter vergonha de dar uma entrevista dessas. Porque não explica o que aconteceu com o tal Queiroz? E o Golden Shower?”, gritava. Um novato, que eu nunca tinha visto por ali, tentou se meter na conversa. “É FAKE NEWS”. O suficiente para Jaime virar bicho. “Quem é esse coxinha metido a moralista?”. E prosseguiu aos gritos: “Bando de ignorantes. São todos culpados”.

As pessoas ainda ficaram por ali andando um pouco. As vezes rindo, as vezes pensativos. Um deles, ao me ver, chegou a gritar: “Deus é grande!”. Depois disso apaguei por um tempo. Um sono profundo e sem sonhos, como é de praxe. Quando voltei à janela, percebi que as calçadas estavam reluzentes e que o dia estava acabando. Sei disso porque costumo observar a senhora que reza na varanda da frente: o céu sempre muda de cor quando ela faz o sinal da cruz .  Vi as sombrinhas que tinham saído a passeio voltando pouco a pouco, mas sem identificar as cabeças que iam embaixo delas.
As luzes da rua, então, acenderam-se bruscamente e eu pude ver um casal que seguia encharcado, sem se importar com as poças d’água. “Relacionamento novo ou namoro a distância?”, reflito.

Mas os feixes de luz dos faróis passando deixaram nítidas as gotas de chuva batendo no rosto dos dois. “Ou talvez as pessoas ainda amem”. Horas depois, o último bêbado entrou no táxi e a luz do Boteco Diabo Louro se apagou por completo. Tentei, de novo, acessar a rede dos vizinhos.

Inacessível e preso a vida, olhei mais uma vez para o céu, que ameaçava esmagar a terra. “Essa chuva, esse tempo. Hora de fechar a janela”. Pensei que, afinal, nada mudara. Mas no escuro, a imagem do casal, tão abandonado e feliz, ainda perambulou por muito tempo antes que eu adormecesse. “Talvez as pessoas ainda amem. Talvez as pessoas ainda amem”.

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