Eis que se apaixonou

Ela era inteligentíssima. Falava sobre tudo. Era simpática. Meio doida. Excelente companhia. Um humor ótimo, aberto, sem censuras, nada agressivo. Mas também reagia quando ultrapassavam o limite que a própria estabelecia baseada em critérios que só Deus sabe.

E chegou a sexta-feira. E Bruna, como de costume, foi pressionada por uma amiga. 

– Você precisa sair. O tempo está passando e tem muita coisa lá fora.

Não que Bruna acreditasse no argumento. Ela conhecia o mundo, parcialmente, mas achava sua imaginação muito mais interessante. E tinha outra coisa que não falava pra ninguém: acreditava que, ao sair de casa, poderia morrer.

– Vamos conhecer uns bares, um drink em cada. Topa?

Não tinha medo da morte e morreria dez vezes se fosse possível, mas tinha medo de estar correta. Imaginava os cinco segundos que supostamente antecedem o fim, quando concluiria ‘eu sabia que isso ia acontecer’.

– Te pego aí na porta em duas horas. Não aceito desculpas.

– Tá bom. Topo.

E Bruna finalmente saiu. Pra arrasar.

E brilhou. E puxou papo com desconhecidos. E bebeu. E fez amizade. E trocou olhares. E riu. E comprou até um maço de cigarros. “Só fumo quando bebo”. E foi no fumódromo que reconheceu um cara que achava interessante, Ricardo. Ele se aproximou e ela não perdeu tempo.

– Acho que te conheço…
– Eu que te conheço. Adoro as coisas que você escreve.

E daí que Bruna, que era muito pragmática, partiu com Ricardo para um bar mais intimista, onde mais uma vez brilhou relembrando com entusiasmo episódios de Sopranos. Apenas para Ricardo, pois era claro que as outras mesas não tinham capacidade de acompanhá-la e estavam ali apenas pra fazer figuração. Ele babava.

– Bruna…

Ela imediatamente parou. ‘Meu Deus, que homem!’. É claro que ela deixaria Ricardo interrompê-la. Coisa que raramente permitia, mas era o Ricardo. Ela sempre achou esse homem inteligentíssimo.

– Diga, meu bem…

E ele, então, deu a real de cara.

– Eu sabia que isso ia acontecer quando te conhecesse.
– O que?

E daí que ele ficou tímido e ela rapidamente criando cenários na cabeça – ‘ai meu Deus, quero viver com esse homem’.

– Sou fascinado por ti.

Pronto. Deram uns beijos. Caminharam um pouco de mãos dadas. Pra não estragar, resolveu bancar a adulta e anunciou que precisava voltar pra casa. Ele, obviamente, lançou a de sempre:

– A minha ou a sua?
– Não. Eu prefiro que a gente se veja depois. Preciso acordar muito cedo.
– Como você achar melhor.

Ricardo ficou para um último chope. E Bruna partiu feliz num Uber. Estava linda, entorpecida pelo álcool, a maquiagem já borrada. Uma vontade esquisita de voar. Uma coisa mágica. Brilhava. Até que deu um estalo.

– Moço, vou mudar a rota. Volta pra onde o senhor me buscou, por gentileza?

Quando reapareceu no bar, não encontrou Ricardo. Abordou o garçom.

– Aquele homem que estava comigo, ele já partiu?
– Acho que foi ao banheiro…

Pronto. Seria ainda mais memorável. Ele sairia do banheiro, ela estaria lá, sentada, bem fofa. ‘Minha amiga estava certa. Eu perdi muito tempo da minha vida em websites’, concluiu.

Mas Ricardo não conseguiu sair a tempo de vê-la uma próxima vez.

Um dos figurantes da cena, desses irrelevantes que nem a câmera de segurança consegue identificar, puxou uma pistola e saiu atirando. Matou um. Matou dois.

E vieram os cinco segundos, os tão temidos cinco segundos por Bruna. Diferente do que imaginara, foram três segundos. ‘Não quero morrer’. 

Matou Bruna. Matou o garçom. Se matou na sequência.

Nas redes sociais, alguns culparam os videogames. Um político disse que é como liquidificador, que ‘pessoas matam’ e que tragédias acontecem. Alguns se comoveram profundamente. Outros foram ao Twitter dizer ‘que tiroteios do tipo já eram esperados’ e culparam o governo. E Bruna, que sempre foi protagonista, pela primeira vez na sua morte, ficou de coadjuvante.

E assim ela partiu. Como alguém que cospe na calçada. Mas sem pensar que ‘estava certa’, como tanto temia. Porque naquela noite, especialmente, algo acontecera dentro dela.

Sobre Ricardo, não há novas informações.

[ fim ]

 

Por: Cacau C.Branco