De volta ao limbo

Publicara um vídeo falso na internet com acusações sérias sobre algo que não vem ao caso, mas apagou após ser convidada pro seu próprio linchamento. Perdeu emprego, amigos, saiu das redes sociais e agora, três meses depois, tentava retomar sua rotina. Sem sucesso. Após vinte entrevistas, decidiu procurar um especialista em reputação virtual.

– A internet não esquece nunca, mas pra tudo se dá um jeito.
– O senhor aceita cheque pré-datado?
– Sim. Gosta de gatos? Disney? Crianças? Cruz Vermelha? Vamos trabalhar nisso.
– Você está dizendo que eu devo deixar de ser eu mesma?
– Olha, não se deve levar muito a sério essa coisa de ‘ser eu mesma’. Isso não existe. Ora ser eu mesma? Não aprendeu ainda? Com esse nome, Clotildisvania Harrissson, você jamais será esquecida…
– E se eu for verdadeira?
– Você pode ser totalmente verdadeira, mas não é natural ser verdadeira, entende?
– Não
– A natureza, por exemplo, não deixa de ser verdadeira porque alguns lagartos conseguem se camuflar. O George Clooney não é tão misterioso depois que vira o seu vizinho. Um casamento verdadeiro nunca é tão interessante quanto o casamento que você viu na Saga Crepúsculo. De perto, na prática, tudo é infinitamente menos atraente. Enfim, não leve esses aforismos de ‘ser você mesma’ muito a sério.
– NOSSA, MAS É PRA CONVENCER ATÉ O DEMO.
– Business…
– Então toma o cheque e só deposita em maio. Prossiga, please.
– Com esse prazo, sinto, muito, mas o rastro de todas essas selfies ficarei devendo.
– Pois deposita logo, então.

Negócio fechado, o especialista montou uma estratégia detalhada que incluía inúmeros bombardeios de fotos fofas, textos piegas e banalidades distribuídas numa agenda de publicação a longo prazo. Três meses depois e as páginas com a repercussão do caso Clotildisvania Harrisson , finalmente, foram empurradas para o limbo – também conhecido como quarta página do Google.

E assim descobriu a maior lição de toda sua vida: a de que os silenciosos nunca depõem contra si mesmo. Importante registrar que Clô, como se chama agora, abriu um negócio especializado em organizar reuniões de executivos em saunas. Sem áudios. Sem prints. Sem roupa. Sem telefone. Todo mundo nu e tomando decisões. Está riquissíma.

É preciso substituir nós todos

[Cena paulistana I] Marlene, 33 anos, meio doida, madrugada de domingo, loja de conveniência, avista Expedito, um colega da antiga firma que sugara sua alma.

– MEU DEUS! QUANTO TEMPO!

Marlene, que ama as pessoas sobre todas as coisas, prende o cabelo, solta o cabelo, sacode outra vez e coloca atrás da orelha.

– E FULANO? AINDA TÁ TRABALHANDO LÁ? NÃO É POSSÍVEL! VAI MORRER NAQUELA MESA, COITADO. ELA AINDA ESTÁ COMO ADMIN DE COMENTARISTAS DE PORTAL?

Expedito, tímido, acima do peso, meio doido, meio sem viço, hábito de viver quieto, disfarça falando sobre o clima.

– Agora ele é CEO de grupos de WhatsApp. Que friACa aqui…

Marlene, que lamenta profundamente a falta de sensibilidade poética na cidade grande, declara, do nada:

– Ano passado, lembra? Você foi uma pessoa muito importante na minha vida e eu queria te agradecer. Eu adoro você.

Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.

ENORME, surge a constatação do título.

Uma noite curta

Ele tinha fumado um baseado e tomado algumas cervejas com a intenção de perder a consciência por algumas horas, mas ainda precisava editar um último texto. Foi quando ela encostou, abriu um novo arquivo e começou a bater delicadamente nas teclas. “Eu vou escrever aqui tudo que vc deve fazer agora”. Ricardo interrompeu para dar um “OK”. Melhor obedecer essa doida.

Possuídos, os dois começaram a se mover. O que se passou ali não interessa ninguém. Segredo. Fora do mundo. Em suma, explodiram.

Na ânsia de cobri-la de beijos, jogou o edredom na sombra fugitiva e fiel dele mesmo. E foi com a triste impressão de que as coisas penetravam novamente na realidade, que Ricardo caiu exausto. Dormiu dez horas e acordou feliz.

[ fim]