E-mail para Deus

Querido Deus,

Esgotei todos os recursos para passar o tempo. Assombrei velhinhas. Atrapalhei o sono do meu ex-chefe. Provoquei confusões. Espalhei espantos. Tretei nas redes sociais. Fiz papelões. Muitas vezes me rebelei.

Peço desculpas por incomodar o Senhor no WhatsApp, então segui sua recomendação e envio minha solicitação por e-mail. Eu sei que fantasmas incomodam, mas sinto que algo mudou.

É por isso que tenho uma comunicação importante para fazer: aquele homem enterrado no cemitério da Consolação não sou eu. Desconfio que na verdade eu nunca morri e que chegou minha hora de viver.  Seria possível?

Também solicito material para tapar alguns buracos negros. E preciso mudar de nome com urgência. Andei pensando sobre aquele trecho do Drummond “Mundo mundo, vasto mundo […]” e descobri que todos os meus problemas começaram quando recebi, em homenagem ao meu pai, o nome Raimundo. Se eu me chamasse Sebastião, eu não seria apenas uma rima, seria uma solução. Providencie nome Sebastião para ontem se possível. E título de eleitor, CPF, imposto de renda, inventário. Tudo diferente.

Não me abandone, Meu Deus.

Beijo.

Raimundo, mas pode me chamar de Tião.

A noviça ateia

Quer conhecer o inferno? Coloque doze pessoas morando numa casa de dois quartos e você terá uma visão clara do ambiente onde vivem os demônios. Foi por isso que Maria José cismou: “quero ser freira”. Não por vocação. Mas porque buscava o silêncio dos conventos. Justificou com uma evidência fortíssima.

– Olhei para esse papel manchado, olhei pra parede e o Pai apareceu.
– Teu pai tá morto, menina.
– Eu vi Deus, tia Santinha, e ele mandou a senhora me levar no convento Nossa Senhora das Meninas. Tá aqui o endereço.

O convento
Enquanto as outras noviças meditavam sobre o Novo Testamento,
Zezé refletia sobre o Nada que literalmente ocupamos. Sobre a real condição de que somos apenas grãos de poeira suspensos entre o … NADA.

Ela não fingia rezar. Crente na nossa insignificância cósmica, Zezé orava com fervor, só que para outras coisas. Rezava pelas estrelas de nêutrons , pelas partículas táquions e, principalmente, pela inexpugnável velocidade da luz. Dedicava novenas diárias para o Universo em expansão e, nas noites mais frias, sonhava com as dimensões extras.Mas eis que, num belo dia, do NADA, a madre superiora pega a Bíblia de Maria José por engano.

– Você anda lendo isso? Uma moça de família, onde já se viu.
– Eu não leio isso. Graças a Darwin não tenho a mentalidade influenciada por essas invenções.
– Graças a quem?
– A Deus.

O retorno
Repugnante. Escandaloso. De arder no inferno. E a madre não pensou duas vezes:
– Estamos mandando a menina de volta pra casa. Não perguntem o motivo.

As outras freirinhas adoraram a atmosfera de segredo em torno do assunto e logo criaram suas próprias versões. A expulsão de Maria José ficaria para sempre relacionada a histórias de gravidez, sexo e almas penadas. Uma lenda!

– Soube de fonte segura: pegaram ela beijando a boca de uma freira velha.
– Nunca me enganou! Engravidou daquele seminarista que veio uma vez aqui.
– Já veio grávida, mas só agora o bucho começou a aparecer.

A madre achou melhor não dizer que a capa da Bíblia de Maria José era usada como fachada de uma cópia do seu livro preferido – também conhecido como “A Origem das Espécies”.

[fim]

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seateoria

É essa a notícia

– Milena! – exclamou Ricardo, via FaceTime.

PRONTO! E ele continuou sem muita enrolação:

– É difícil, mas eu preciso ser honesto com você, comigo, com todos que estiveram conosco nesses últimos sete anos.
– Vai terminar o noivado?
– Sim.

Ela engasgou.

– Aquela prima de longe está grávida?
– Você não conhece. Na verdade, estamos muito apaixonados. Coisa avassaladora.
– E nossa parceria com a LOQUISIDANE ? Lançamento será semana que vem. Você não pode fazer isso. Temos um contrato, Ricardo.

Para Milena, as tragédias poderiam até existir, mas desde que seus seguidores no Instagram nunca soubessem. Imaginou Valeria Sarney, a sócia no negócio de biquínis, sentimental diante do seu sofrimento. Pensou em Agáta, Henriqueta, Valentina. Pensou no pessoal do crossfit. Nos patrocinadores. “Meu Deus, será o fim dos hidratantes #Milado”. Pensou em todas as fãs frustradas pelo fim do casal perfeito. Pensou na mãe, mostrando-se condescendente quanto a possibilidade de nunca ter netos. “Horrível que a vida seja assim tão pública”, refletiu.

E tomou uma atitude drástica. Mandou todos os seguidores para a puta que pariu e mudou para uma quitinete em Santos.

Parte 11.
Voltou para São Paulo dois anos depois. Um emprego no funcionalismo público. Coisa tranquila. Acordava. Tomava café. Pegava a linha vermelha. Paquerava. Olhava pra aliança. “QUE NOVIDADE, NÃO É MESMO?!”. Descia na Santa Cecília. Cumprimentava os colegas. Tomava bastante café. Fazia uns fuxicos. Participava de alguma reunião. Pagava algum imposto. Cozinhava um miojo. Salvava umas receitas no Pinterest. INSTAGRAM, NEM PENSAR. COISA CAFONA. Dormia. E, se tivesse sorte, tinha um sonho erótico. Até porque ela já estava vivendo um sonho. O ‘sonho’ de viver em paz. É um clichê, mas NÃO É ESSA A NOTÍCIA, pois naquela noite resolveu ler um livro.

Perto do abajur, um Aedes aegypti dançava. Com um tapa seco, Milena esmagou o Aedes. Assassinou o Aedes. E isso lhe encheu, novamente, de uma alegria violenta. Porque talvez, no mundo, alguém ainda precise ser salvo por ela.

[FIM]

Por Cacau CB