Não foi possível conectar-se à esta rede

Vivo apenas neste quarto. Entre uma cama de solteiro, um lençol velho, um espelho amarelado e uma escrivaninha que funciona como mesa e penteadeira. Eu estou sem internet desde o mês passado (ou talvez mais, não sei bem) e há duas semanas sem luz. É por isso que dei para passar o tempo na janela que dá para a rua principal do bairro.

Ontem fazia uma tarde bonita e as pessoas andavam sem pressa: fim de semana, talvez? Na calçada em frente, a mulher que matou o marido secava as unhas, livre e feliz. Atrás dela, um vira-lata puxava o adolescente em direção ao Boteco Diabo Louro na tentativa de capturar o cheiro da feijoada. Definitivamente, era sábado.

Rapazes vestidos com a camisa do Palmeiras chegavam pouco a pouco e formavam um grupo animado. A turma de aposentados, por sinal, já estava lá: do apartamento era possível escutar a voz de um deles defendendo a “eliminação” da cracolândia. “Quer dizer que pago imposto pra recuperar vagabundo? Tinha que jogar gasolina nos caras e pronto”. Foi interrompido, em seguida, pelo senhor de bigode, que chegou contando uma piada machista. “Toda mulher que reclama de estupro é feia pra caralho”. Entediado, tentei, pela milésima vez, descobrir a senha da rede wi-fi do vizinho –  para variar, fracassei miseravelmente. “Esta janela me parece mais uma meditação violenta sobre a realidade do mundo. Fazer o que?” Puxei uma cadeira e sentei a cavalo para observar o espetáculo.

Jaime, o ex-policial aposentado, apareceu pouco depois no boteco: indignado, balançava uma revista Veja. “Esse Bolsonaro deveria ter vergonha de dar uma entrevista dessas. Porque não explica o que aconteceu com o tal Queiroz? E o Golden Shower?”, gritava. Um novato, que eu nunca tinha visto por ali, tentou se meter na conversa. “É FAKE NEWS”. O suficiente para Jaime virar bicho. “Quem é esse coxinha metido a moralista?”. E prosseguiu aos gritos: “Bando de ignorantes. São todos culpados”.

As pessoas ainda ficaram por ali andando um pouco. As vezes rindo, as vezes pensativos. Um deles, ao me ver, chegou a gritar: “Deus é grande!”. Depois disso apaguei por um tempo. Um sono profundo e sem sonhos, como é de praxe. Quando voltei à janela, percebi que as calçadas estavam reluzentes e que o dia estava acabando. Sei disso porque costumo observar a senhora que reza na varanda da frente: o céu sempre muda de cor quando ela faz o sinal da cruz .  Vi as sombrinhas que tinham saído a passeio voltando pouco a pouco, mas sem identificar as cabeças que iam embaixo delas.
As luzes da rua, então, acenderam-se bruscamente e eu pude ver um casal que seguia encharcado, sem se importar com as poças d’água. “Relacionamento novo ou namoro a distância?”, reflito.

Mas os feixes de luz dos faróis passando deixaram nítidas as gotas de chuva batendo no rosto dos dois. “Ou talvez as pessoas ainda amem”. Horas depois, o último bêbado entrou no táxi e a luz do Boteco Diabo Louro se apagou por completo. Tentei, de novo, acessar a rede dos vizinhos.

Inacessível e preso a vida, olhei mais uma vez para o céu, que ameaçava esmagar a terra. “Essa chuva, esse tempo. Hora de fechar a janela”. Pensei que, afinal, nada mudara. Mas no escuro, a imagem do casal, tão abandonado e feliz, ainda perambulou por muito tempo antes que eu adormecesse. “Talvez as pessoas ainda amem. Talvez as pessoas ainda amem”.

O stalker de bem

Desertos mentais instauram-se com bastante frequência durante as viagens de  elevador do condomínio ‘Esistenza’. É nesta caixa  absolutamente doida e irreal que a câmera mira Fernanda. Num arranque, o elevador para e a voz de um homem surge. No espelho, seu reflexo.

Nandinha, ainda posso te chamar assim ? Sou eu.

Permaneci calado por dois anos, mas não deixei de te observar por nenhum dia. A real é que não entendo por que as pessoas sentem tanta necessidade de se comunicar. Lá pra onde mudei é um silêncio só. 

Não gostou de escutar minha voz ? Quis fazer uma surpresa e parece que funcionou. Você está um pouco pálida, mas não precisa ter medo, nunca te faria mal. Ao contrário de ti, nunca falei mal de você. E não adianta negar. Eu vi, eu tenho provas. Eu escutei aquele áudio. Você mente sobre mim, mas não me importo. Porque me importaria considerando minha atual situação ?

Nandinha, eu tenho te observado bastante nos últimos dias. Você anda bem soltinha no Twitter… fazendo graça, querendo chamar a atenção. E interessante aquela sua ida ao teatro. “Não sou muito de teatro”, você dizia. Também vi seu rosto em determinado aplicativo de encontros. Me esqueceu rápido, né? Pois eu, não. No sábado tive uma crise de riso com aquele seu Stories no Ibirapuera. Você e aquele maconheiro vagabundo deitados na grama, num típico programa classe média. Senti um pouco de pena. Sábado no Ibirapuera? Fala sério, Nandinha. Nós sempre abominamos esse tipo de programa…

Para de gritar! Não adianta! Estamos presos aqui e não é um sonho. E vê se para de jogar essa bolsa contra o espelho porque depois vão te cobrar os danos e, até onde sei, você está devendo agiotas.

Vê se não me desconcentra mais porque ainda preciso falar umas coisas e meu tempo tá acabando …

É isso. Não canso de te observar. Adoro te ver acordando com a marca do travesseiro na  testa. São tantas câmeras e ângulos, você não tem ideia. Adoro te ver dormindo bêbada, torta, respirando álcool pela boca.

Para de me olhar assim, por favor! Será que piorei tanto? Tentei tomar um sol antes de aparecer aqui, mas não deu tempo. O terno está um pouco gasto, mas foi você quem escolheu, não recorda? Continuo tão branco quanto no dia que você me matou.

Ainda guardo a cena fresca na memória. Você atirando contra meu rosto, com o meu revólver.  Tu ainda é a única pessoa do mundo que me conhece, Nandinha. Foi exatamente por isso que atirou? Logo eu, um homem de bem!

Preciso partir. Meu tempo no elevador está acabando e você não me verá ou me escutará tão cedo. Mas aproveito pra dizer que não adianta colar adesivo na câmera ou trocar de celular porque sempre estarei por aí. No fundo, você salvou minha vida e agora é responsável por ela.

Um dia nos encontraremos de novo e te mostrarei tudo. É inevitável, Nandinha. Te amo. Te amo. Te amo. Te a…

Outro arranque. A imagem some. A voz se cala. O elevador volta a se movimentar. As portas se abrem no térreo e Fernanda parte na mesma velocidade em que gira a Terra. 

Vou ter um filho teu

Querido amigo,

Sua SORTE finalmente chegou! Acredite! Ela não vai chegar! ELA JÁ CHEGOU. Você só precisa ler esta mensagem inteira ou, ALERTA IMPORTANTE, a sorte virará e coisas terríveis acontecerão na sua vida ou de pessoas próximas

Sinta-se abençoado por receber a corrente ‘TERTULIANO ACIMA DE TODOS’

Leia as instruções abaixo e encaminhe esta mensagem (via zap, e-mail, sms, mensagem direta de rede social, pombos ou correios) para 30 amigos e você terá uma surpresa agradabilíssima em DEZESSETE DIAS. Você quer evidências? São muitas, MILHARES, mas sabemos que as três abaixo SÃO O SUFICIENTE para te convencer de que TUDO É POSSÍVEL.

  1. Após enviar a corrente, determinado nazista, sem ser ariano, e dominado por distúrbios fisiológicos, psicológicos e outras baixarias, conseguiu convencer parte da Europa de que a PURIFICAÇÃO RACIAL e o fim das IMPERFEIÇÕES era algo completamente SENSATO e possível. Ainda há quem acredite.
  2. Aquele ator pornô que já confessou ter estuprado uma senhora, por exemplo, foi eleito deputado federal com discurso sobre família e Deus. Testemunhas garantem que foi após espalhar a corrente.
  3. E tem ainda aquele deputado que odeia mulher e gay: foi eleito presidente de um país emergente e ganhou um autógrafo do seu ídolo, Donald Trump. TUDO APÓS ESPALHAR A CORRENTE.

Não importa se você desmoraliza o que você deseja, esta corrente é MESMO CAPAZ DE TUDO. ELA NÃO JULGA, APENAS REALIZA. É UMA ENERGIA SEM CONTROLE.

Mas você deve estar se perguntando quem é TERTULIANO na fila do pão. POIS BEM.

Em 1600, na Grécia, TERTULIANO HELIOS teve um sonho premonitório indicando como a corrente funcionaria. Ao acordar, o homem fez um desenho e distribuiu via pombos com algumas instruções que foram cumpridas POR TODOS que receberam o recado.

A força da corrente foi TÃO GRANDE que Tertuliano, em seguida, teve outro sonho indicando que ele precisava mudar para o Brasil. Ao chegar completamente SEM DINHEIRO, DOCUMENTO ou PARENTE, descobriu um grande poço semi-perene pra onde iam muitos bois. O lugar foi batizado de “Poço dos Veados”. Tertuliano ficou rico, muito rico, trabalhou pouco, foi muito feliz e morreu dormindo, com 120 anos, após pronunciar ‘ROSEBUD’.

A morte, no entanto, se deu apenas no plano físico. Seus seguidores trataram logo de atualizar seus meios de distribuição. É o caso do telefone, já que a corrente de Tertuliano passou a ser distribuída também via trote telefônico. Depois veio o fax.

Com o advento da Internet, a corrente perdeu qualquer limite através do correio eletrônico e já deu DEZESSETE voltas pelo mundo atingindo, inclusive, outros planetas fora do nosso conhecimento científico. Todo ser humano vivo recebeu, mesmo sem ter lido, esta mensagem. Quem não leu também caiu em desgraça – e o pior: sem saber que poderia ter evitado.

Agora, se você prefere quebrar esta corrente ancestral, preste atenção nas consequências. Um padre que recebeu o e-mail e apagou, desapareceu dias depois pendurado em balões de festa. Um diretor do movimento antivacina, que acusou a corrente de espalhar fake news, foi encontrado morto após contrair febre amarela.

INSTRUÇÕES:

vou ter um filho teu.gif

TUDO que você precisa fazer antes de repassar é um depósito de segurança no valor de R$20 via paypal AQUI. O dobro será devolvido na sequência. Alguns relatam que já receberam não só o valor depositado, mas também várias transferências desconhecidas de quantias ENORMES. Segundo estudiosos, a generosidade é proporcional à fé do remetente.

Após o depósito, abra o desenho anexado e OLHE DURANTE 30 SEGUNDOS sem piscar. Depois olhe pra uma parede branca. O QUE VOCÊ VÊ?? UMA IMAGEM DE TERTULIANO ? Então você está no caminho certo.

DETALHE IMPORTANTE. Ao encaminhar este e-mail, com o ANEXO, apague o FW e coloque no título: VOU TER UM FILHO TEU. Assim você garante que nossa corrente de sorte siga adiante.

gravida de taubaté não leu a corrente

 

A senhora da foto também leu a corrente, mas repassou apenas para 25 pessoas e acabou realizando seu sonho apenas parcialmente. TEM QUE SER TRINTA

 

Prepare-se para realizar os seus sonhos mais impossíveis e insensatos. Tudo, ABSOLUTAMENTE tudo que parece impossível de acontecer, e sem explicação, foi obra desta corrente.

CHEGOU A HORA do seu GIGANTE ACORDAR. MÃOS A OBRA. 

Assinado: Tertuliano IV.

 

 

Próxima Estação: Coração Partido

Os filmes que a gente vê, os livros que a gente lê, as bobagens que acompanhamos sobre a vida de quem nem sabe que existimos, os tweets irônicos, os Stories do Instagram com imagens da televisão, são uma maneira de escapar das nossas dores.

Já Fátima, que não tinha intimidade com redes sociais, usava o metrô de São Paulo como escapismo; um local absolutamente doido e irreal, sendo a linha vermelha manipulada por força obscura.

Linha Vermelha

Era segunda-feira, 6h30, quando embarcou. Sob a máscara do celular, um jovem ocupava o assento preferencial. Irritada com a falta de educação do rapaz, Fátima desceu na Marechal Deodoro. “Bando de imprestável, um dia envelhecerão também”.

Na plataforma, Fátima perdeu algum tempo admirando a figura de um trabalhador rural derrotando um monstro disforme associado às forças de opressão. Um belo trabalho do artista Gontran Guanaes Netto. O mesmo artista tinha outra obra ali, uma homenagem à Revolução Francesa. Um rapaz pediu que Fátima tirasse uma foto. 

– Tiro com prazer! Você sabia que esse painel foi inspirado na tela de Delacroix? Nesse, os revolucionários franceses foram substituídos por trabalhadores rurais brasileiros. 

Irritado, o rapaz respondeu:

– “Não quero mais foto. Tudo pilantra!

República

E Fátima partiu rumo à República, onde referências ao modernismo pipocavam  na instalação de Antonio Peticov. Uma parte da massa se despediu para a entrada de outro grupo. Um senhor sem máscara, desprovido de qualquer aparelho, chamou sua atenção. Entrou focado, olhos vidrados naquele assento vazio. Decidida, encerrou a disputa e sentou como se ali fosse o seu trono.

“Já é a quarta vez que vejo este homem aqui. Sem dúvida, tem um rosto interessante”. E puxou conversa com a moça ao lado, que estava concentrada no triatlon Twitter-Instagram-WhatsApp.

– Acredita  em amor à primeira vista?

– Claro que não. Tchau.

 E partiu deixando o assento ao lado de Fátima vazio. O homem misterioso, então, se aproximou, mas  acabou oferecendo o lugar para uma mulher supostamente grávida. “De perto dá pra sentir que não é um bêbado. Bastante asseado”.  

SÉ  

Esmagada pela multidão e por notificações de WhatsApp que reproduziam-se como gremlins,  tentou cumprimentá-lo com um sorriso, mas fracassou miseravelmente. O homem estava concentrado na TV Minuto, onde uma cidade acabara de ser engolida pela lama de uma mineradora. Foi aí que o senhor misterioso resolveu falar.

– Agora vão querer culpar o Bolsonaro. Mal entrou e já querem culpar o capitão.

Com base naquela reprodução verbal, Fátima concluiu que aquele homem era um imbecil e sua indiferença soou como uma homenagem.
 
No monitor, um mar de lama. Famílias desesperadas. O horror de existir. A terrível verdade de que em alguns dias ninguém se importaria mais com aquilo. 

A brutalidade da cena provocou uma associação de sons e imagens. “Deus modelando o homem com a argila do solo – a morte – o nada – porque ainda estamos aqui? – aquele policial está armado? A execução de Marielle. A execução de Marielle. Uma mulher honesta. Já vai fazer um ano?”

Falando alto, Fátima soltou um “que absurdo”, ao que uma adolescente reforçou:

– Um absurdo mesmo ler e não responder!

Fátima permaneceu o dia inteiro ali, indo e voltando naquela espécie de cápsula espacial, quando finalmente reconheceu alguns rostos que retornavam. “A vida continua”, pensou. Mas automaticamente se corrigiu. “Não continua. A vida se repete. Estamos todos presos”.
 
Abandonou o metrô na Guilhermina-Esperança  e seguiu, sabe-se lá como, para casa. Estava ansiosa para desligar-se da Terra.

O juiz que deletava tweets

Trilha sonora recomendada para ler o texto: Leandro e Leonardo.

Algumas paixões são misteriosas. A dos homens por carros, por exemplo, sempre me intrigou. A do juiz da Lava Jato que sonha em ser tuiteiro é outra que me comove.

Não aprendi dizer adeus

1/2018. DELETADO ? Dúvida

É bom que o juiz saiba que tuiteiro não lembra o aniversário da mãe, mas tem uma memória implacável para tuítes deletados. Começo minha seleção pela despedida BÁSICA que tuiteiros dão toda segunda e como NÃO TEM VERGONHA NA CARA voltam já na quarta como se nada tivesse acontecido.

Não sei se vou me acostumar

19 de fevereiro de 2019. DELETADO

AffffFFFFFFFFffFFFFFFFFFFF COMO VOCÊS SÃO BOBOS. Aquele dia que o tuiteiro tá de SACO CHEIO e sai desmerecendo a timeline toda. “PORQUE VCS NÃO CONSEGUEM FALAR SÉRIO. CRESÇAM BLABLABLA”. Duas horas depois o tuiteiro tá lá postando um MEME. Normal, seu juiz.

Apesar de tanto amor, vai ser melhor assim…

4/2018. DELETADO

Como toda interação é suspeita, pois o Twitter uma cidade do interior e todo mundo sabe de tudo, juiz fez a DIPLOMÁTICA. Acontece que MAGNO MALTA FICOU TÃO LOKA que acrescentou os sobrenomes Moro e Bretas em seu nome de registro no painel eletrônico no Senado Federal. Em seguida, o juiz deletou a mensagem carinhosa enviada para o então senador Magno Malta BRETAS.

É por você que canto

5/2018. DELETADO

Super normal também. Quando você fala uma merda e daí uma pessoa com influência retuíta, tipo a Monica Bergamo, chega o coração dispara. EITA, APAGA, APAGA. Já passei por isso quando tuitei que o Eduardo Cunha estava num flat em Moema (é uma piada interna, mas amigos jornalistas começaram a ligar e PENSE NUM DESESPERO). Alguém lembra do que o Bretas tava falando nesse episódio REPUTAÇÃO?

Sonho por Sonho

10/2018. DELETADO.

ISSO É MUITO TUITEIRO! Todo baseado na tal “lacração”, termo usado pelos jovens para descrever atos de “querer aparecer”, Bretas aproveitou o protesto de Roger Waters para:

  1. Dizer que é MÚSICO, “uma pessoa culta, toca até instrumento, veja”.
  2. Apoiar Bolsonaro desmerecendo Roger Waters.

Eu juro. Por mim mesmo. Por Deus, por meus pais. Vou te amar…

DELETADO?

Se o corregedor nacional de Justiça não vê violação em comentário de Bretas sobre política no Twitter, QUEM SOU EU?

“Qual é a relevância desse texto mesmo?” Perguntaria o juiz baluarte da sabedoria. A resposta é: nenhuma. Mas li em algum ensinamento do Olavo de Carvalho que a personalidade, o caráter, entre outras coisas, estão nas sutilezas.

Uma ótima quarta.

Eu não sou um robô

À primeira vista, tudo parecia tranquilo. Sobre a lâmpada erguida no teto, via-se um grupo de mariposas voando em espiral como se aquela fosse a única fonte luminosa localizada na Terra. Num impulso, olhou mais uma vez sua caixa de e-mails, onde o destino lhe reservava uma estranha mensagem. “Futuro papai, economize ainda mais com o pacotão Zizi de fraldas descartáveis.”

Demétrio franziu a testa, apagou o e-mail e seguiu para uma última olhadinha no site de notícias, onde outra surpresa pipocava: “Parto assistido em casa com 70% de desconto”.

Ele, atônito, não compreendia. De repente, a internet inteira parecia lhe dizer: “olha, você ainda não sabe, mas  você será pai”.

A situação ficou ainda mais cabulosa nas redes sociais, que insistiam em lhe recomendar enxovais diferenciados para bebês de zero a três meses.

Demétrio, tomado por aquela sensação sinistra que nos acomete na infância, quando uma mão enorme sai de um lugar desconhecido e puxa nosso pé, gritou:

– FORA TODOS!

Nem eufórico, nem deprimido – a melhor definição, neste caso, seria ‘passado’ -, deitou-se no sofá de chenille da Etna e pegou o telefone a fim de investigar o caso. Tudo pelo WhatsApp para não assustar ninguém.

– Isabel, você menstruou esse mês?

Leu e não respondeu. Uma pausa dramática e dez minutos depois

– É meu marido pra pedir satisfação, seu merda?

Depois mandou mensagem para sua última ficante.

– Tudo bem? Sei que não te liguei no dia seguinte, mas preciso saber se existe a possibilidade de você estar grávida de um filho meu.
– Mas você não comeu.

Constrangido, desligou sem se despedir. “O carnaval. Só pode ter sido no carnaval”. Sabendo o que poderia encontrar, voltou ao Facebook, onde o anúncio de um evento brilhava no canto superior direito: “Encontro dos papais de primeira viagem”.

– Não é possível!

Ligou para a rede social, onde tentaram lhe convencer que tudo não passava de “customização, comodidade, cruzamento de dados”.

É preciso dizer que Demétrio não desabafava no Facebook, não compartilhava opiniões políticas, não comprava produtos online, não baixava aplicativos suspeitos e tinha presença discreta em apenas duas redes sociais. “Por motivo profissional”, justificava.

Tinha um endereço de correio eletrônico cuja senha trocava periodicamente aos domingos. “Algo complicado o suficiente para que ninguém descubra, mas relativamente simples para que eu consiga lembrar”. Receber uma série de anúncios vinculados à paternidade era, no mínimo, estranho para alguém que destacava-se pela reserva – considerada, por muitos, como pura falta de brilho mesmo.

Após deletar todas as suas contas, ligou para o servidor, para a fabricante do notebook, para a operadora de celular, para o Google, para Deus e o mundo.

– Estou sendo espionado.
– Senhor, indivíduos com o seu perfil não atraem espiões.
– Como você sabe?

Silêncio. 

–  O senhor limpou os cookies? Reiniciou a máquina? Atualizou o roteador?
– Sim. Sim. Sim.
– Senhor, não há mais nada a fazer. Gostaria de anotar o número de protocolo?
Demétrio então ligou para seu psicanalista, que deu a dica após escutar todo o caso: tem problemas com o pai. Grande descoberta! Mais de 10 mil gastos em consultas nos últimos anos para desvendar o “mistério dos mistérios”.
– TUDO BANDIDO SAFADO!

 Não satisfeito com a explicação, foi até a polícia denunciar o caso.

– O senhor tem algum motivo para se sentir ameaçado? -, perguntou o delegado.
–  A internet sabe mais coisas sobre mim do que eu mesmo.
– Ligação anônima?
– Pior! Imagine  um vendedor que aparece em todos os lugares onde o senhor vai antes mesmo de você sonhar em precisar da coisa.
– E esse vendedor  está lhe ameaçando?
– NÃO. Foi só um exemplo! É muito pior. O senhor já acordou com a sensação de que algo está errado mas que não há nada que você possa fazer pra mudar isso?
– Sim, todos os dias.
– Então, eu gostaria de prestar queixar contra isso.
– Pela ameaça de que a internet sabe mais sobre sua vida do que você?
– Sim.
– Sabia que reutilizar uma senha é muito mais perigoso do que anotá-la em um papel?  Que a mudança periódica de senhas evitaria…

Estava se expondo ainda mais daquele jeito. Logo ele, um homem discretíssimo. 

– Esquece. Tchau.

Chorou baixinho mas, no silêncio do seu Honda Civic blindado, aquele ruído era aterrador. A privacidade; o fim de tudo; os dados; os dados; os dados. Diante da impossibilidade de viver sem ser observado, jurou em voz alta.

– Um dia vou te encontrar, meu filho!

E dirigiu sem rumo, atraído pela suposta ideia de que não estava mais sozinho.

O suicídio bem-sucedido

porque minha vida é assim

Em suma: o mundo estava chato, eles estavam frustrados com suas vidas e aquele parecia um belo dia para sair de cena. Marcaram de morrer depois do almoço de domingo, num quarto de hotel. Tudo previamente combinado num grupo de WhatsApp.

Sentados em círculo,  apelaram à razão, que logo apareceu sentada no seu trono. Os fatos foram então apresentados sem preconceitos e a revelação de que eles não tinham porque continuarem vivos veio sem grandes threads.

Em seguida, para evitar qualquer incidente ou contratempo, Marlene apresentou o power point dos próximos passos: ângulo, distância, assim como o tempo que eles teriam de vida após serem atingidos, ocuparam quarenta slides.

Apenas relembrando a situação dos envolvidos.

  • Maria José, que não conseguia se matar;
  • Marlene, que não conseguia esquecer;
  • Juscelino, que não aguentava mais 2019;
  • Expedito, que já era defunto;
  • Sebastião, que apenas registraria tudo

Marlene atiraria no próprio peito e, nos trinta segundos restantes, dispararia contra a cabeça de Juscelino. Maria José faria o mesmo com Expedito e concluiria assim o suicídio dos quatro. Como foi dito acima, Sebastião estava lá apenas pela Live do Instagram e também porque telefonaria para imprensa, IML e afins.

Acontece que a roleta russa da vida girou e algo não premeditado aconteceu.

Ao invés de mirar no próprio peito, Marlene mirou na cabeça e não sobreviveu o minuto combinado para atirar em Juscelino, que ergueu as mãos para o céu e saiu gritando “Deus acima de todos!”. 
Já Maria José desistiu de morrer, mas mirou direto na cabeça de Expedito – aquele que já era defunto.

Sobraram no quarto Maria José, Sebastião, dois corpos sem vida, meia garrafa de uísque, uma vontade esquisita de transar, de ser feliz, de tirar selfies, de realizar o sonho da casa própria.

E assim permaneceram por mais quarenta anos, incentivados também pela existência de um Deus antes desconhecido – denominado por muitos crentes como amor.