Endurecer sem perder a ternura

São 13h. Depressa, sem muito lamento, escrevo por uma necessidade de ternura num ano que já foi batizado de trágico.

Por ofício, passei os últimos anos avaliando, diariamente, o noticiário sobre o Brasil. Às vezes me permitia chorar, mas para o jornalista isso não é bem “permitido”. É preciso mentir para si mesmo, repetir mentalmente, como um mantra, que aquilo não é sobre você, que “amanhã passa”, ou pular automaticamente para outro assunto, enganando deliberadamente o seu cérebro.

Recorde de assassinatos. Recorde de mulheres violentadas. Vereadora executada. História em chamas. Famílias destruídas. Bebês afetados pelo Zika. Chacinas nos presídios. Desabamentos. O incêndio no Ninho do Urubu.

Mais fácil seria não ver, mas o fácil geralmente não importa. Nós somos consumidos por aquilo que mais amamos: a notícia. E o que importa para um jornalista é se manter próximo do que está acontecendo.

Em nome da informação, muitas vezes somos empurrados a deixar de lado aquilo que é o mais puro de nós mesmos: a capacidade de se abater por um longo período. Esse é um valor que não rende furos. Que não rende elogios. Que não rende reconhecimento. Que não rende avanços na carreira. Que não impulsionam. A verdade é que essa sensação não passa, mas nos transforma.

Há, na coleção de aforismos de Kafka, um trecho ao qual tento me permanecer fiel:

“Pelo próprio ato de viver, ele embaraça o seu caminho. O embaraço, porém, dá-lhe a prova de que ele vive”.

Não me considerem, apesar das inúmeras pistas, sensível demais. Este é um texto de quem sabe que o tempo, o mesmo que nos dissolve, carrega consigo um mistério: o de que escrever, contar histórias, relatar acontecimentos e encarar batalhas internas tão duras é também uma experiência radical de renascimento. Isso mantém a ilusão de que ainda temos um longo caminho pela frente e, quando nos apegamos a isso, nossa profissão se torna fascinante.

Um ato de coragem.

….

Ontem, a morte do jornalista Ricardo Boechat trouxe a tona uma comoção rara de se ver; eis a motivação também desse texto.

 

Sem luz no final do sorvete

sorvetinho cacau

Há dias contei o caso de um senhor, na faixa dos 92 anos, que me parou na Avenida Ipiranga. Sentado na poltrona de trás de um Lamborghini, abriu o vidro e lançou: Continuar lendo Sem luz no final do sorvete

Taxista, malufista e fã do Reinaldo Azevedo

Maluf e BolsonaroSob uma chuva torrencial, caminhei até a Avenida Ipiranga e tomei um táxi: “Bom dia, é uma corrida curta por causa dos alagamentos”.

Esse foi o pretexto para o motorista iniciar uma conversa.

“Se o Maluf tivesse sido eleito presidente, não estaríamos todos boiando”. Perguntei porque ele acreditava nisso. “Se o partido do Maluf não tivesse apoiado a candidatura do avô do Aecio Neves, Sarney jamais teria sido presidente. A senhora é muito nova, não deve lembrar”. Respondi que de fato não lembrava, mas que era jornalista e gostava de política. Sobrou pra mim.

“Jornalista? Melhor a senhora não falar isso por aí”.

Bom ouvinte de rádio, o taxista disse que escutava muito o Reinaldo Azevedo, desde os tempos em que ele não era “petista”. E emendou: “Eu não votei no tal do Bolsonaro por causa do Reinaldo. Um homem muito inteligente”. Perguntei se gostava de mais algum jornalista. “Gosto do Kennedy”.

E continuou falando. “Sou muito bem informado e posso garantir pra senhora que o Brasil nunca dará certo’”.

Dei risada e perguntei porque ele gostava do Maluf, que representava a continuidade do regime militar na época, e não gostava do Bolsonaro. Eis a reposta:

“Porque eu votaria num homem que prega o fim da corrupção? Pra quê? Pra provocar desemprego ? Pra colocar a culpa de tudo nos outros e não fazer nada? Eu estou quase pedindo a volta da corrupção”.

Segundo sua lógica, o brasileiro não presta. Ou é honesto ou é malandro, ou é generoso ou é otário. “Veja só o Collor senador! E a Dilma, coitada, era muito incompetente, mas caiu por nada. Não sou petista, mas brincadeira…”

O taxista também estava impressionado com os filhos do presidente brasileiro e escandalizado com a eleição de João Dória. “Mas não votei no Skaf. Fiz uma corrida pra ele e sequer me cumprimentou”.

Daí contei que votava em São Paulo, mas era piauiense. “Teresina, moro aqui há doze anos”. E ele: “Então já é paulista”. Esbocei um protesto.

No caminho, um pequeno rebuliço por conta de um farol quebrado. “Veja isso. Colocam um monte de farol moderno, mas quando chove, que é quando precisamos mais ainda deles, todos quebram”.

O carro se aproximava do meu destino quando perguntei, afinal, em quem ele votara para presidente. Já sabia que não era petista, nem bolsonarista, e gostava do Maluf. “Votou no Ciro?”, provoquei. “O candidato que eu menos odiava está preso. Anulei. A senhora vai pagar na máquina?”.

Ali estava, sem muito blábláblá, um brasileiro tipicamente ‘moderno’: saudoso do velho, mas sem grandes ilusões.

Eu disse que pagaria em dinheiro, ao que ele reagiu positivamente puxando um bolo de notas de vinte: “Ótimo”.

Saiu pra comprar cigarro

A senhorita Maria custou, mas curvou-se ao encontro marcado por um pretendente chamado Ácido Acético Etílico Da Silva.  “Qualquer coisa faço uma cena e ambos nos sentiremos péssimos, daí nunca mais ele insistirá”, calculou. A temperatura estava perto dos trinta graus. Ela chegou, apertou sua mão e Ácido teve consciência de que sua beleza era real.  “Não é mais um truque de foto de aplicativo”, pensou aliviado. Já a moça lamentou em silêncio: “Mais um golpe do avatar”.

Sentados, pediram um refrigerante. Maria estava decidida a falar menos e deixou que o rapaz iniciasse o assunto.

– Te acompanho no Twitter e olha: você é muito informada

– Deve ser porque sou jornalista

– Mesmo assim…

– Sou paga pra isso

– E escreve bem, né?

– Obrigada

– E fala besteira. Adoro mulher que fala besteira.

– Tento falar de meia em meia hora.

– Que ótima! E Victor Hugo? Você realmente conseguiu ler “Os Miseráveis?”

– Visitei túmulo até.

– Você sempre com esse humor maravilhoso…

– Não entendi.

– Visitou túmulo do Victor Hugo?

– Sim, fica no Panteão de Paris. Achou que era no cemitério da Consolação?

Silêncio. Outro refrigerante.

– E você é independente financeiramente?

– Sim. Boletos em dia. Algumas dívidas com o Bradesco, mas levando…

– Adoro que o seu cachorro se chama Darwin. É por causa do pai da evolução?

– Não. É por causa de um restaurante que frequentava no Piauí.

– Como chama sua outra cachorrinha?

–  Anna Karenina

– Que demais. A do livro?

– Sim. Aquela que se matou.

– E percebo que você gosta de futebol. Acho incrível.

– Gosto.

– Joga Fifa?

– Jogo PES.

– AH AÍ É MENTIRA. Tem algum defeito?

– Todos citados acima.

Silêncio. Maria resolve finalizar o papo.

– Escuta, não gozo de uma boa saúde. Tenho muitas dores de cabeça e provavelmente morrerei cedo pois gosto mesmo é de ficar deitada.

– Eu também.

Diante do fracasso, joga sua última carta.

– Tem um cigarro?

– Não fumo.

– Então me espera aqui que vou sair pra comprar.