Endurecer sem perder a ternura

São 13h. Depressa, sem muito lamento, escrevo por uma necessidade de ternura num ano que já foi batizado de trágico.

Por ofício, passei os últimos anos avaliando, diariamente, o noticiário sobre o Brasil. Às vezes me permitia chorar, mas para o jornalista isso não é bem “permitido”. É preciso mentir para si mesmo, repetir mentalmente, como um mantra, que aquilo não é sobre você, que “amanhã passa”, ou pular automaticamente para outro assunto, enganando deliberadamente o seu cérebro.

Recorde de assassinatos. Recorde de mulheres violentadas. Vereadora executada. História em chamas. Famílias destruídas. Bebês afetados pelo Zika. Chacinas nos presídios. Desabamentos. O incêndio no Ninho do Urubu.

Mais fácil seria não ver, mas o fácil geralmente não importa. Nós somos consumidos por aquilo que mais amamos: a notícia. E o que importa para um jornalista é se manter próximo do que está acontecendo.

Em nome da informação, muitas vezes somos empurrados a deixar de lado aquilo que é o mais puro de nós mesmos: a capacidade de se abater por um longo período. Esse é um valor que não rende furos. Que não rende elogios. Que não rende reconhecimento. Que não rende avanços na carreira. Que não impulsionam. A verdade é que essa sensação não passa, mas nos transforma.

Há, na coleção de aforismos de Kafka, um trecho ao qual tento me permanecer fiel:

“Pelo próprio ato de viver, ele embaraça o seu caminho. O embaraço, porém, dá-lhe a prova de que ele vive”.

Não me considerem, apesar das inúmeras pistas, sensível demais. Este é um texto de quem sabe que o tempo, o mesmo que nos dissolve, carrega consigo um mistério: o de que escrever, contar histórias, relatar acontecimentos e encarar batalhas internas tão duras é também uma experiência radical de renascimento. Isso mantém a ilusão de que ainda temos um longo caminho pela frente e, quando nos apegamos a isso, nossa profissão se torna fascinante.

Um ato de coragem.

….

Ontem, a morte do jornalista Ricardo Boechat trouxe a tona uma comoção rara de se ver; eis a motivação também desse texto.

 

A timeline de Jair Bolsonaro, Parte III: 24% dos Tweets do presidente, em fevereiro, são sobre “ideologias”

Continuando a avaliação da timeline do presidente Jair Bolsonaro nos dez primeiros dias de fevereiro.

Novos números demonstram uma atenção especial ao assunto “Ideologias”.

Foram 17 posts abordando o assunto nos dez primeiros dias de fevereiro; uma média de 1,7 post sobre “ideologia” por dia.

Dos 70 posts observados, entre originais e retuítes, 17 se enquadram na categoria “Ideologia”: 24% do total observado. Três tweets com emojis foram ignorados.

Nos dez primeiros dias de janeiro, proporção foi de 25%.

Os ministros Tarcisio Gomes, Ernesto Araujo, Damares Alves e os filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro são os perfis mais retuítados pelo presidente brasileiro. O vice, General Mourão, não é retuítado por Jair Bolsonaro no período.

Esta é uma pesquisa em desenvolvimento. Como apontei no primeiro post desta série, meu objetivo é avaliar a organização da Comunicação interna de Jair Bolsonaro através da análise de suas redes sociais.

Recomendo, ainda, a leitura da coluna de Paula Cesarino Costa, publicada ontem na Folha, sobre o uso que a família Bolsonaro e seus apoiadores fazem das redes sociais

Sem luz no final do sorvete

sorvetinho cacau

Há dias contei o caso de um senhor, na faixa dos 92 anos, que me parou na Avenida Ipiranga. Sentado na poltrona de trás de um Lamborghini, abriu o vidro e lançou: Continuar lendo Sem luz no final do sorvete

Taxista, malufista e fã do Reinaldo Azevedo

Maluf e BolsonaroSob uma chuva torrencial, caminhei até a Avenida Ipiranga e tomei um táxi: “Bom dia, é uma corrida curta por causa dos alagamentos”.

Esse foi o pretexto para o motorista iniciar uma conversa.

“Se o Maluf tivesse sido eleito presidente, não estaríamos todos boiando”. Perguntei porque ele acreditava nisso. “Se o partido do Maluf não tivesse apoiado a candidatura do avô do Aecio Neves, Sarney jamais teria sido presidente. A senhora é muito nova, não deve lembrar”. Respondi que de fato não lembrava, mas que era jornalista e gostava de política. Sobrou pra mim.

“Jornalista? Melhor a senhora não falar isso por aí”.

Bom ouvinte de rádio, o taxista disse que escutava muito o Reinaldo Azevedo, desde os tempos em que ele não era “petista”. E emendou: “Eu não votei no tal do Bolsonaro por causa do Reinaldo. Um homem muito inteligente”. Perguntei se gostava de mais algum jornalista. “Gosto do Kennedy”.

E continuou falando. “Sou muito bem informado e posso garantir pra senhora que o Brasil nunca dará certo’”.

Dei risada e perguntei porque ele gostava do Maluf, que representava a continuidade do regime militar na época, e não gostava do Bolsonaro. Eis a reposta:

“Porque eu votaria num homem que prega o fim da corrupção? Pra quê? Pra provocar desemprego ? Pra colocar a culpa de tudo nos outros e não fazer nada? Eu estou quase pedindo a volta da corrupção”.

Segundo sua lógica, o brasileiro não presta. Ou é honesto ou é malandro, ou é generoso ou é otário. “Veja só o Collor senador! E a Dilma, coitada, era muito incompetente, mas caiu por nada. Não sou petista, mas brincadeira…”

O taxista também estava impressionado com os filhos do presidente brasileiro e escandalizado com a eleição de João Dória. “Mas não votei no Skaf. Fiz uma corrida pra ele e sequer me cumprimentou”.

Daí contei que votava em São Paulo, mas era piauiense. “Teresina, moro aqui há doze anos”. E ele: “Então já é paulista”. Esbocei um protesto.

No caminho, um pequeno rebuliço por conta de um farol quebrado. “Veja isso. Colocam um monte de farol moderno, mas quando chove, que é quando precisamos mais ainda deles, todos quebram”.

O carro se aproximava do meu destino quando perguntei, afinal, em quem ele votara para presidente. Já sabia que não era petista, nem bolsonarista, e gostava do Maluf. “Votou no Ciro?”, provoquei. “O candidato que eu menos odiava está preso. Anulei. A senhora vai pagar na máquina?”.

Ali estava, sem muito blábláblá, um brasileiro tipicamente ‘moderno’: saudoso do velho, mas sem grandes ilusões.

Eu disse que pagaria em dinheiro, ao que ele reagiu positivamente puxando um bolo de notas de vinte: “Ótimo”.

Críticas à imprensa e ‘ideologia’ representam 38% da timeline de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro publicou 211 tweets entre 1 e 31 de janeiro de 2019. Emojis foram excluídos nessa análise. Cerca de 17% deles são ataques diretos à imprensa e jornalistas.

bolsonaro e imprensa.png

  • Referências a partidos de oposição, como insinuações sobre a relação do PSOL com o atentado, comparações com Lula e ‘despetização’, representam 21%.
  • Pode-se dizer que 38% da timeline de Bolsonaro em janeiro foi uma forma de se proteger ‘atacando’.

TIMELINE janeiro Bolsonaro.png

  • Nos últimos dez dias, Bolsonaro triplicou o número de tweets, assim como o número de ataques à imprensa. Entre 1 e 10 de janeiro, foram sete tweets. Entre 21 e 31 de janeiro, foram 21 tweets.

grande dia

  • As principais referências externas do presidente são os perfis Renova, Isentões, Falha de São Paulo e OdiodoBem.

bolsonaro insentoes.png

  • Apenas dois tweets relacionados à imprensa foram sem tom pejorativo: entrevista à Bloomberg e vídeo da TV Record.

bolsonaro record.png

  • A linguagem de Bolsonaro, e aqui não há novidade, ainda não se descolou da linguagem do filho, Carlos Bolsonaro.

bolsonaro jean willis.png

  • A renúncia do ex-deputado Jean Willys, a tragédia em Brumadinho, a participação em Davos e a cirugia do presidente foram os principais assuntos nesse período.

bolsonaro e falha.png

  • A linguagem utilizada pelo presidente durante a tragédia em Minas Gerais teve um tom mais pessoal, mais apropriado ao cargo que Jair Bolsonaro ocupa.

Bolsonaro Brumadinho

A timeline de Jair Bolsonaro: dez dias

A família Bolsonaro, e isso não é novidade, bate muito na mesma tecla: a imprensa. Mas isso é apenas uma percepção nossa ou uma realidade projetada deliberadamente pelo governo? É tão aleatório assim ?

Não sei, mas observei a organização dessa agenda nos últimos dez dias com base em critérios de pesquisa e compartilho aqui uma AMOSTRA. Os resultados iniciais já indicam alguns possíveis padrões.

Canal: Twitter

Período: 1 a 10 de janeiro

Volume observado: 85 tweets (63 originais e 22 Rts)

1. Timeline de Jair Bolsonaro: tweets originais

Com a tendência de repetir os assuntos, Bolsonaro falou sobre seis temas em 2019. Utilizei os seguintes critérios para essa divisão.

grafico sem RTS.png

Imprensa: críticas à imprensa e jornalistas

Institucional: reuniões, atividades, agenda

Posse: dia da posse

Ideologia: PT, “gestão anterior”, ideologia de gênero

Violência: armas, segurança, mortes

Percebam que ideologia (20%) e imprensa (11%), se reunidos, aproximam-se quantitativamente de Institucional (32%), assunto que predominou no período.

Vale ressaltar que é difícil categorizar os tweets de Bolsonaro pois os assuntos se sobrepõem. Exemplo:

tuite jair enem.png

Não entrarei em detalhes sobre os critérios no momento, mas adianto que considerei o tweet acima como Institucional, apesar de caber também em Ideologia.

2. Timeline de Jair Bolsonaro: retuítes

Nessa amostra, retuítes de mensagens publicadas pelos filhos (seis no total) e retuítes de perfis de “paródia” (seis no total) respondem pela principal projeção.

gráfico de retuites bolsonaro janeiro dez dias.png

Gráfico de RTs por perfis de Destaque

Gráfico de RTS dez primeiros dias.png

Isso quer dizer que 25% da timeline de Bolsonaro, nos dez primeiros dias de governo, foi alimentada por ‘fake news’ e ataques à imprensa (considerando que os Rts dos filhos também eram referências ao assunto): 14% Rts + 11% Tweets originais.

falha de sp 1.png

Para quem tem pouco ou nenhum contato com a Teoria da Comunicação, é válido reforçar que o curso da informação nas redes é muito mais ordenado do que uma caminhada aleatória. Estaria o governo reproduzindo o modelo centralizado de ‘mídia de massa’ ? Ainda é cedo, amor, mas a metodologia científica existe pra responder ‘coisas’ do tipo.

Em desenvolvimento…

bjs

cacaucb

Almoços Imaginários

Sendo o mais narcisista, Doria é o mais paulistano dos políticos paulistas. O narcisismo paulista implica um fascínio exclusivo com a própria imagem combinada à uma expansividade que é personificada, sendo mais simplista, pelo ‘tio do pavê’. Ou seja, sem a auto-gozação que torna o carioca um tipo mais simpático.

Em setembro de 2017, João Doria participou brevemente de uma recepção no Palácio do Eliseu, em Paris. Por aqui, o então prefeito alardeou pelas redes uma REUNIÃO com o presidente francês, mas a comunicação do Eliseu utilizou outros termos: ‘Ele foi saudado pelo presidente”. Segundo especialistas em leitura labial, Macron e João trocaram as seguintes palavras:

– Revista Caviar

– Oui

É bem conhecida a fama de Macron de ‘gongadeiro’, então pode ser que o diálogo acima tenha acontecido. A agenda oficial do ex-prefeito Doria também anunciou um almoço reservado com o primeiro-ministro, Édouard Philippe. Ao Estadão, a direção de comunicação de Philippe informou que o encontro sequer chegou a ser programado.

Fique claro que Dória não é o protagonista desse humilde texto. O protagonista é o ALMOÇO: evento que reúne pessoas estimuladas pelo apetite em torno de uma mesa onde se dão formas de aproximação e tratamento.

De volta para ontem

14 de janeiro de 2019

almoço bolsonaro e embaixadores

A agenda do chanceler brasileiro divulga almoço com Bolsonaro e embaixadores da Bolívia e da Itália. À tarde, a agenda do chanceler exclui os embaixadores da lista de participantes.

Ao jornal “O Globo“, a representação italiana informou que o embaixador sequer está no Brasil. Já a boliviana disse que o embaixador não sabia do almoço. É verdade que desencontros acontecem, mas os convites sequer foram feitos ? Um pequeno truque de leve pra dar pinta na imprensa ? Não estavam com fome e deram o vácuo ? Talvez só mais uma mentirinha besta pra não perder a prática. Normal.

De volta para o passado

Outubro de 2016

Cúpula dos BRICS na Índia, outubro de 2016. Outro rei da gongação, Vladmir Putin esnoba Michel Temer. O então presidente, obviamente, tenta dar o truque na imprensa brasileira INVENTANDO almoço/jantar com o russo.

Um almoço ótimo com Putin
BRICS – Putin esnoba Temer

Uma hipótese na física teórica defende que o nosso universo pode ser apenas um entre um número infinito de universos que compõem um “multiverso”. Nessa perspectiva, é possível que Doria, Macron, Temer, Putin, Trump, Embaixadores, Jair, Dudu, Carlos, Ernesto, Didi, Zacarias, Huck, Alexandre Garcia e Fabricio Queiroz  estejam todos almoçando e brindando o sucesso que é a vida nesse momento.

E agora?, perguntará você. E agora nada. Vamos todos fazer exercícios e beber água pois a vida sedentária é péssima para a saúde.

Tenham um bom dia.