O suicídio bem-sucedido

porque minha vida é assim

Em suma: o mundo estava chato, eles estavam frustrados com suas vidas e aquele parecia um belo dia para sair de cena. Marcaram de morrer depois do almoço de domingo, num quarto de hotel. Tudo previamente combinado num grupo de WhatsApp.

Sentados em círculo,  apelaram à razão, que logo apareceu sentada no seu trono. Os fatos foram então apresentados sem preconceitos e a revelação de que eles não tinham porque continuarem vivos veio sem grandes threads.

Em seguida, para evitar qualquer incidente ou contratempo, Marlene apresentou o power point dos próximos passos: ângulo, distância, assim como o tempo que eles teriam de vida após serem atingidos, ocuparam quarenta slides.

Apenas relembrando a situação dos envolvidos.

  • Maria José, que não conseguia se matar;
  • Marlene, que não conseguia esquecer;
  • Juscelino, que não aguentava mais 2019;
  • Expedito, que já era defunto;
  • Sebastião, que apenas registraria tudo

Marlene atiraria no próprio peito e, nos trinta segundos restantes, dispararia contra a cabeça de Juscelino. Maria José faria o mesmo com Expedito e concluiria assim o suicídio dos quatro. Como foi dito acima, Sebastião estava lá apenas pela Live do Instagram e também porque telefonaria para imprensa, IML e afins.

Acontece que a roleta russa da vida girou e algo não premeditado aconteceu.

Ao invés de mirar no próprio peito, Marlene mirou na cabeça e não sobreviveu o minuto combinado para atirar em Juscelino, que ergueu as mãos para o céu e saiu gritando “Deus acima de todos!”. 
Já Maria José desistiu de morrer, mas mirou direto na cabeça de Expedito – aquele que já era defunto.

Sobraram no quarto Maria José, Sebastião, dois corpos sem vida, meia garrafa de uísque, uma vontade esquisita de transar, de ser feliz, de tirar selfies, de realizar o sonho da casa própria.

E assim permaneceram por mais quarenta anos, incentivados também pela existência de um Deus antes desconhecido – denominado por muitos crentes como amor.