Endurecer sem perder a ternura

São 13h. Depressa, sem muito lamento, escrevo por uma necessidade de ternura num ano que já foi batizado de trágico.

Por ofício, passei os últimos anos avaliando, diariamente, o noticiário sobre o Brasil. Às vezes me permitia chorar, mas para o jornalista isso não é bem “permitido”. É preciso mentir para si mesmo, repetir mentalmente, como um mantra, que aquilo não é sobre você, que “amanhã passa”, ou pular automaticamente para outro assunto, enganando deliberadamente o seu cérebro.

Recorde de assassinatos. Recorde de mulheres violentadas. Vereadora executada. História em chamas. Famílias destruídas. Bebês afetados pelo Zika. Chacinas nos presídios. Desabamentos. O incêndio no Ninho do Urubu.

Mais fácil seria não ver, mas o fácil geralmente não importa. Nós somos consumidos por aquilo que mais amamos: a notícia. E o que importa para um jornalista é se manter próximo do que está acontecendo.

Em nome da informação, muitas vezes somos empurrados a deixar de lado aquilo que é o mais puro de nós mesmos: a capacidade de se abater por um longo período. Esse é um valor que não rende furos. Que não rende elogios. Que não rende reconhecimento. Que não rende avanços na carreira. Que não impulsionam. A verdade é que essa sensação não passa, mas nos transforma.

Há, na coleção de aforismos de Kafka, um trecho ao qual tento me permanecer fiel:

“Pelo próprio ato de viver, ele embaraça o seu caminho. O embaraço, porém, dá-lhe a prova de que ele vive”.

Não me considerem, apesar das inúmeras pistas, sensível demais. Este é um texto de quem sabe que o tempo, o mesmo que nos dissolve, carrega consigo um mistério: o de que escrever, contar histórias, relatar acontecimentos e encarar batalhas internas tão duras é também uma experiência radical de renascimento. Isso mantém a ilusão de que ainda temos um longo caminho pela frente e, quando nos apegamos a isso, nossa profissão se torna fascinante.

Um ato de coragem.

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Ontem, a morte do jornalista Ricardo Boechat trouxe a tona uma comoção rara de se ver; eis a motivação também desse texto.